CONDENADOS À SOLIDÃO

 

  Xangai, Bar dos Átomos, ano 2550 D.R.V.         

              (Depois da Revolução Virtual)

 

Aqui pouca coisa acontece, ou você é um hacker e ganha a vida fodendo a vida dos outros, ou só dorme mesmo. Eu faço os dois e aproveito para passar um tempo enchendo a cara nesse bar com decoração cyberpunk vintage

 

  Trabalhar se torna um porre depois de 200 anos executando a mesma função. Chega um momento em que você percebe que o sistema te faz de rato e você se conforma. Eu não roubo por mal, é uma consequência das circunstâncias que se apresentam na minha vida. Por falar em vida, hoje a expectativa é tão longa que eu tenho tempo suficiente para superar qualquer arrependimento. Você pode ir ao shopping e comprar tempo. Com a fortuna que eu ganhei roubando, posso viver milênios. 

 

  Engraçado é que quando se tem tudo, você quer mesmo é mandar tudo para casa do caralho. Venho sendo assombrado pelo desejo de morrer há pelo menos 50 anos, e acredite, neste sistema ainda sou considerado uma criança.

 

 Imagina que porre viver para sempre.

 

  Admiro as pessoas que ainda acreditam no romance que acompanha à esperança de vida pós morte. Depois de tanto tempo vivo, você só quer morrer mesmo, desligar e fade out. Cansei dessa mentira patética. A cerveja tem um gosto bom e o bife de carne é muito saboroso, por um segundo você quase esquece o fato de que são 100% virtuais. Todos sabemos que estamos ingerindo um algoritmo genético que nos satisfaz a fome. Até a merda que eu cago é uma simulação. 

 

  A gente se engana e deixa enganar. 

 

  Acreditamos nessa realidade enquanto a ideia de viver nos diverte, mas no fundo eu sei que é tudo de mentira.

 

                                           

                                    ***

 

  De repente a porta do bar se abre, do lado de fora é possível ver a chuva. No vão da porta, com um pé dentro e outro fora, uma moça fica fitando o bar e encarando tudo e a todos com os seus óculos de realidade aumentada. Devia ter 1,70m de altura, usava um macacão de couro justo com decote em V e usava um black power, apesar de ser branca. 

 

 Ser vintage é a nova onda do futuro.

 

  Ela ficou parada por alguns segundos encarando todos no bar, estava à procura de algo. Olhou de cabo a rabo essa espelunca e parou o olhar quando cruzou com o meu. 

 

   Merda! Ela está vindo para cá. 

 

Tentei disfarçar e fiquei olhando para minha cerveja, mas o som dos seus passos não enganam, ela estava caminhando em direção à minha mesa.

 

– Jason Thorn, é você?! - ela perguntou se curvando contra minha mesa.

 

– Talvez eu seja - respondi levantando a cabeça e aproveitando para passar os olhos pelo seu decote - Quem quer saber?

 

– Meu nome é Tália - ela disse puxando a cadeira e sentando do meu lado. Retirou o óculos e revelou um belo par de olhos azuis.

 

– Tudo bem Tália, vou entrar no seu jogo. Eu sou o Jason. O que você quer comigo?

 

– Fiquei sabendo que você quer morrer - ela disse se inclinando mais perto de mim e sussurrou - posso te ajudar.

 

– Você quer se aproveitar de minha necessidade? Morrer é fácil, não preciso de ajuda.

 

– Posso te pagar.

 

– E o que um morto faria com o seu dinheiro?

 

– Foi isso que pensei. Não tem nada que posso oferecer. É simples: você quer morrer e eu quero matar. Se você deseja morrer, vou estar te fazendo um favor e não vou ser julgada por Deus. - ela disse.

 

– Que piada! Você acredita em Deus?! - perguntei sem conseguir conter o riso.

 

– Claro que acredito, olha só isso - ela começou a fuçar em seus bolsos e sacou uma foto com a imagem de Jesus Cristo - esse é o nosso salvador, Jason!

 

– Me desculpe - disse já não conseguindo conter a gargalhada - essa velharia não faz sentido há muito tempo. Não acredita na nova ordem? Dizem que o inferno é o point do momento, todo mundo quer ir pra lá.

 

– Não vim aqui debater o poder de Deus - ela respondeu impaciente, visivelmente incomodada com a falta de fé de Jason - você quer morrer ou não?

 

– Tudo bem, mas com uma condição.

 

– Qual? - ela perguntou com os olhos arregalados de ansiedade.

 

– Quero transar com você, sexo real mesmo. Depois que eu gozar você pode me matar.

 

– O que é isso, Jason? Acha que eu sou uma prostituta qualquer? Você pode conseguir sexo em qualquer lugar.

 

–  Você quer matar? Então esse é o preço, Talia. Pegar ou largar.

 

Ela ficou encarando-o por um tempo. Pensando nas possibilidades e depois raciocinou que na verdade não era um preço tão alto. 

 

– Tudo bem. Na minha casa ou na sua? - ela perguntou finalmente se decidindo.

 

– Na minha. Vamos! - respondi.

 

 

                                   ***

 

  Jason jogou 5 níqueis em cima da mesa, pegou Tália pela mão e caminhou até a estação de teletransporte, digitou a senha, fez o reconhecimento de retina e ordenou “casa ”. 

 

  Em poucos segundos estavam na sua sala. Luzes vermelhas se acenderam por todo o apartamento, o som ligou automaticamente e tocava Réquiem. O som ecoava por todos os cômodos. Aos beijos, eles foram para à cama. Em 10 minutos ela estava nua, em 18 minutos ela estava sendo penetrada e gemia alto, em 25 minutos os dois já tinham chegado ao gozo. 

 

     Lacrimosa começou a tocar.

 

  Ele olhou no fundo dos olhos dela. Percebeu que quando chega a hora de morrer não importa o estado ou qualidade de nossa felicidade. 

Tália, ainda por cima dele, pega a arma de pulso eletromagnético e aponta contra sua cabeça. 

Se afogam em um último beijo e ainda de olhos fechados, ela aperta o gatilho.

 

                         BANG BANG

 

                 O QUE FAZ DAS        

             NOSSAS VIDAS UM INFERNO

             É A EXPECTATIVA DE VIVER

                  PARA SEMPRE.

 

                                                    ᴛʜᴇ ᴇɴᴅ