SILÊNCIO DA NOITE


GRITO SURDO NO ESCURO,

UM FOCO DE LUZ

SE ACENDE PARA MIM.



Como crianças que criam o próprio universo de areia nas margens das praias, essa luz que se apresenta na minha angústia vira minha única companhia dentro deste castelo frio e solitário que é minha existência. É a coisa mais bela que já vi, uma áurea dourada acompanha esse foco de luz azul cintilante que brilha mais forte do que o diamante garimpado pelas mãos calejadas de um condenado. Assim como no fundo do mar, flutuamos pela escuridão de cada cômodo, revelando móveis de madeira rústica empoeirados e podres pela falta de uso.


Sereia que me encanta com seu canto, essa luz me hipnotiza e faz seguir os seus passos por todos os lados deste imenso paraíso negro de destruição. Cada vez mais perto, posso sentir o calor que emana de sua áurea queimando as pontas dos meus dedos fracos de carne humana, Michelângelo ficaria orgulhoso de ver que como na representação da Capela Sistina, estou cada vez mais perto de tocar este poderoso vagalume, este poderoso Deus.




Negamos as medidas em nome da redenção. O tempo já não faz mais sentido... durante esse flerte algumas encarnações passaram diante de meus olhos e eu vi Jesus Cristo crucificado. Ele era negro. Eu vi a construção das Esfinges e dei um passeio pela Via Láctea. Mamei o leite direto da teta dos Reptilianos.  Eu vi a criança sendo gerada ainda na útero, eu vi a beleza da primeira bactéria que originou a vida, eu vi o processo de putrefação da democracia acontecer numa fração de segundo, eu vi o poder dos deuses de perto, me embebedei na sua fonte e nadei nos tesouros ali depositados.


        Depois de tanto me revelar, o flerte começou a fazer efeito e a luz passou a ir mais devagar. Reagia aos meus estímulos como se vangloriasse da sua vantagem em relação a mim.

        Acelerava, parava, dava piruetas e quando eu chegava um centímetro de tocá-la, logo se punha a correr mais rápido que nunca... isso durou por alguns milhões de anos até que finalmente a luz se rendeu e nos relamos. Era quente como a alvorada provocada pelo Big Bang, o desejo pelo pecado de estar em contato com Deus me fez queimar, apodrecer e renascer das cinzas mais vezes do que posso contar. Como uma fusão nuclear, abracei o meu destino e nos tornamos uno. Alma e Espírito Santo me concedeu a graça de sua imensidão dilacerante.




CONSUMIMOS UM AO OUTRO



O Paraíso se foi, o frio me acertou e como uma televisão que se cansa de sintonizar a programação, apagamos. Nos rendemos ao silêncio do sono eterno.


FADE OUT



No frio do nulo, permaneço esperando a próxima luz que vou consumir. Não sou covarde, ao morrermos a vida triunfa sobre a morte.



Somos como vagalumes,

Iluminando somente o suficiente

Dessa imensa escuridão.





ᴛʜᴇ ᴇɴᴅ

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ROBERTO CRUZComment