MÚMIAS


    MÚMIAS

Ela disse que sabia morrer


Fazia muito tempo que não lhe visitava. Me parece que por mais relutância que aplico nesta condição, de alguma forma ou de outra sou levado para este lugar. Sem escapatória sou tragado e lembrado de que por mais forte que eu seja, ainda não sou páreo para as vontades deste vácuo que não aceita luz e todos os meus gritos de socorro são abafados para além da metafísica do inconsciente.


Engolido pela gigante baleia que me cala dentro da sua barriga, sou impedido de cantar. Se eu não me esquecesse de lembrar, talvez você pudesse me acompanhar até o fundo do poço.


Se engana quem pensa que só quando morremos de fato é que trazemos tristeza àqueles que permanecem em vida. Fazer parte disto me canibaliza ao mesmo tempo que tento me recuperar e está difícil permanecer de pé sem apoio.

Basta fechar os olhos que sou forçado a assistir um cinema particular que acontece dentro da minha cabeça. Este filme que já foi um sucesso, mas hoje é só uma gravação empoeirada e esquecida na caixa preta do Barão Vermelho.

Meu medo de morrer foi intensificado, porquê agora sou atormentado pelo pesadelo de não poder mais abrir os olhos e ficar preso pra sempre nesta caverna que me escondo para fugir de você. Como uma grande tragédia, me afundo em direção à tristeza enquanto você emerge do mundo dos mortos e me assombra.

Imaginei o seu enterro e dentro do caixão tinha apenas um monte de pequenas lembranças felizes. Você era um poltergeist que gargalhava e rodeava o campo de rosas que plantei em sua homenagem. Fiquei espantado  ao constatar que como um anarquista, você realmente tem o poder de enganar a morte.


Somos juntos um velho VHS fora de moda que por causa do tamanho, insiste em atolar no meu rabo e me causa dor de barriga.



THE END

ROBERTO CRUZ