​ULTIMA RATIO REGUM


Mar: Vasta extensão de água salgada     

                                    que ocupa a maior parte da

                                    superfície terrestre.


Gritos de gaivotas passam em rasante de um lado para o outro, cheiro doce de maresia com areia molhada. Ao Leste nasce um novo sol que confere um tom alaranjado refletido na superfície do mar, como um espelho de chamas.

Respiro fundo e preencho cada espaço vazio do meu pulmão com aquela calmaria, e como que com sabedoria divina sou atingido pelo pensamento de que sou muito pouco ou quase nada diante da magnitude esmagadora da vida.

O cosmo que vai para além do infinito me beija o rosto com a radiação que percorreu quase toda a distância que compreendemos como longe, um longe que jamais homem algum será capaz de percorrer. O sol que se apresenta ao fundo deste belo cenário me esmaga como se eu fosse uma pequena mosca.


        Caminho até a margem das águas, e as ondas beijam os meus pés como um convite que me seduz a percorrer aquelas águas geladas e inexploradas cheias de vida abaixo da superfície. Um calafrio de excitação e medo percorre meu corpo e sobe pela nuca. Sem perceber estou sorrindo para o mar.

Atrás de mim, sinto uma presença. Olhos curiosos me caem sobre as costas, esta intuição eu desenvolvi ao longo dos meus quase setenta anos, poucas vezes erro. Me virei para observar o olho que me observava e reparei num garoto que assistia a minha relação com o mar como quem assiste um grande lançamento no cinema. Lhe sorrio com os olhos e volto a olhar para o mar, ele se aproxima cada vez mais e é quase possível ouvir a areia se moldando ao formato de seu pé na medida que aproximava de mim.


— Bom dia, garoto. – Eu disse ainda olhando para o mar.

— Bom dia, velho. – Ele respondeu sem muito entusiasmo.

— O que há de errado? Nem parece que finalmente eu terminei de construir o barco.


Como que com uma lâmpada que se acende depois de dias sem energia, o rosto do garoto se iluminou e ele explodiu em entusiasmo.


- Jura?! Não acredito que conseguiu, velho... realmente terminou de construir? Me mostre! – Ele disse enquanto pulava quase sem conseguir conter a animação.


Abri um sorriso e caminhei até onde estava o barco. Era um barco simples, com a vela rasgada que tive o prazer de encontrar abandonado nesta praia há três meses e desde então visito aqui para reforma-lo. O encontro do barco aconteceu no mesmo dia que vagava pela praia em busca de consolo, havia acabado de perder a minha companheira para o câncer e vendo o barco tão triste resolvi que agiria como Deus e daria vida a ele novamente.

O garoto deve ter sido atraído pelo barulho das marretadas contra a madeira do casco e o grito agudo da serra que lapidava cada pedaço que o barco necessitava. Há duas semanas venho sentindo a sua presença e o peso dos seus olhos curiosos me davam força para encontrar sentido naquela reforma instintiva, ele respeitava e admirava o barco tanto quanto eu.


Chegou o grande dia, o dia de devolver a vida para o barco e lhe entregar para o mar que é o seu lugar. Tirei com um movimento a capa que cobria o barco e o cheiro doce de madeira envernizada tomou conta do ar e nos envolveu por alguns segundos, antes de se fundir a maresia. Os olhos do garoto se arregalaram e a beleza da sua felicidade competia com a beleza do barco. Apesar de simples, o barco era robusto e a vela recebera uma nova lona branca que refletia o laranja do sol e brilhava como o mais belo diamante.


- Gostou? – Lhe perguntei observando a resposta que já lhe pendia no rosto.

- Está lindo! – Ele respondeu enquanto circundava ao redor do barco e lhe passava a mão pelo casco.

- Vamos ver se ele flutua no mar? – Perguntei

- Está tão belo que chego a pensar que este barco pode até voar... vamos coloca-lo na água.


No embalo das suas gargalhadas, empurramos o barco até a margem do mar, que o recebeu pouco a pouco com pequenas ondas de boas vindas que lhe beijavam o casco e retornavam, lhe beijavam o casco e retornavam, lhe beijavam o casco e retornavam. Quando a água já batia na minha cintura, agradeci a ajuda do garoto e pedi que retornasse para a praia.

Continuei empurrando mais um pouco e quando senti segurança, dei um pulo e consegui subir no barco. Ele se manteve firme e sereno, balançando em sintonia com as ondas. Se comportava como um cavalo selvagem que retorna às isoladas montanhas da Mongólia. O barco exalava uma estranha áurea de pertencimento, o mar era seu lugar.


O sol se levantava a minha frente e ofuscava o meu horizonte, mais atrás o garoto testemunhava o milagre de ter dado luz a nova vida do barco. Voltei meu rosto para o horizonte, fechei os olhos e respirei fundo. Senti o calor do raio de sol beijar a minha face. Naquele momento, eu estava completo novamente.

Abri os olhos, fitei minhas mãos de velho e me lembrei de quando ainda era um garoto que pulava e se entusiasmava com a vida. O tempo passa rápido demais.


          Soltei a corda que prendia a vela ao mastro e ela se abriu com um movimento circular que ganhava força a cada volta... radiante como o véu de uma noiva que se revela aos olhos de Deus.

Um solavanco forte para frente quase me faz cair do barco, aquilo me fez sorrir, dei uma gargalhada como dei poucas vezes na vida, eu estava feliz. Sentei na popa, segurei o leme e sabia que meu objetivo não era domar aquele barco, ele sabia para onde deveria ir.





Navegarei até a parte mais escura do sol.



THE END

ROBERTO CRUZ