PASSO PASSO



    Tempo: Duração relativa das coisas

                          que cria no ser humano a ideia

                          de presente, passado e futuro.



Estudando os processos do ciclo vital, aprendi que não é muito comum pessoas da minha idade considerarem a morte em seus planos, ou pelo menos percebê-la tão cedo.


          Acontece que na minha vida, a morte sempre vem caminhando lado a lado comigo, às vezes dois passos a minha direita outras vezes dois passos a minha esquerda.  Ver tantas pessoas próximas sendo levadas para o além me faz questionar quase sempre o porquê de tudo e quais são as causalidades que fazem ela chegar tão perto mim e levar quem está do meu lado enquanto eu permaneço de pé.


Mais estranho ainda é pensar que Cronos tenha reservado uma hora para cada pessoa morrer. “Quando chegar a sua hora não tem como escapar.” – as pessoas dizem para mim tentando justificar porquê o meu amigo de infância precisava morrer em um acidente de carro aos vinte e dois anos.

      Quanta crueldade nos dar uma vida já sabendo a hora que iremos morrer. Não posso acreditar que Deus possa ser tão maldoso com pessoas tão boas e benevolente com pessoas tão ruins. Talvez a bondade tenha relação direta com este fato... quanto melhor somos para os outros, menos vivemos. Aquela velha história de que vaso ruim não quebra.


A primeira vez que me lembro da morte ter passado perto de mim, aconteceu há pelo menos quinze anos atrás. Os garotos da minha rua se reuniram e organizaram um passeio até um rio que ficava próximo do nosso bairro. Não lembro ao certo aonde era, mas lembro de ter perguntado para o meu pai se eu poderia ir junto. Acontece que meu pai negou, claro. Afinal de contas eu não sabia nadar e o mais velho que iria nos acompanhar devia estar na casa dos treze anos de idade. Lembro que isso me deixou com tanta  raiva do meu pai que cheguei até a desejar que ele morresse por não ter me dado permissão.


        Todos os garotos eram meus amigos, mas eu conservava um carinho especial pelo Gustavo que na época tinha a mesma idade que a minha  e gostava de vídeo-game tanto quanto eu. Me lembro de pegar alguns jogos de Playstation emprestados com ele e passar horas falando sobre os novos lançamentos e folheando as revistas que exploravam o tema. Achava engraçado que ele tinha a estranha mania de cortar flanelas em formato de CD para colocar dentro das caixas e proteger as mídias de possíveis arranhões, não entendia para que tanto zelo com os jogos, já que eram falsificados. Ele dizia que era importante cuidar das coisas para elas durarem, nunca me esqueci disso.


        No grande dia, durante a preparação para o passeio, eu acompanhei os garotos até aonde pude e vi que eles inventaram algumas solução de segurança improvisadas como boias de garrafas pet. Eu não botava muita fé que aquilo daria certo, mas Marcelo que era o mais velho me garantiu que já tinha feito aquilo outras vezes e sempre dava certo.


        Engraçado como achamos soluções fáceis e descomplicadas quando não temos dinheiro, eu adorava a engenhosidade daqueles garotos. Um até inventou máscara de mergulho feita a partir de um óculos velho e um cano largado... esse eu tinha certeza que não daria certo.


          Fui caminhando com eles até a parte de cima da rua e pensei diversas vezes se não deveria ir contra a autoridade do meu pai e acompanhar os meus amigos até o Rio. Não entendia porquê Deus havia de ser tão rígido comigo e me proibir de ir. Mas essa ideia logo abriu espaço para o pensamento da surra que eu levaria caso desrespeitasse a ordem do meu pai e  afastei essa tentação. Acompanhei meus amigos até virarem a esquina e balançarem os braços em sinal de tchau. Voltei para casa e esperei, acho que foi o dia mais longo e tedioso da minha vida, todos os meus amigos estavam lá se divertindo enquanto eu ficava buscando passa tempos. Logo o relógio já marcava 17h00 e ninguém havia retornado. Neste momento eu fiquei realmente triste, porque se demoravam tanto para voltar, devia ser porque o passeio realmente valera a pena.


  A rua lá de casa era de paralelepípedo, tinha duas curvas em formato de S e era uma descida enorme. Sentei na varanda e esperei por algum sinal dos meus amigos. Já deveriam ter voltado àquela hora... não passou muito tempo até avistar o Felipe descendo a rua, lá longe, ainda na primeira curva do S. Então corri ao seu encontro, mais rápido do que nunca. O sol de verão caia sobre os seus ombros e me ofuscavam os olhos toda vez que eu tentava olhar para ele, mesmo assim corri sem parar e cada vez mais rápido. Foi só quando cheguei bem perto que pude ver que ele estava chorando.




— O que aconteceu? Por quê demoraram tanto? – perguntei.


— Aconteceu uma desgraça, Robertinho. Ainda bem que você não foi. – ele respondeu com voz chorona.


— Oxi mano, que papo é esse? O que aconteceu? – eu perguntei segurando o seu braço e olhando fundo nos seus olhos.


— Foi o Gustavo, mano. Ele morreu afogado. – ele respondeu não contendo as lágrimas e caminhando para sua casa.


Eu não consegui processar muito bem a informação, morrer para mim era a última coisa que poderia acontecer com alguém. Não consegui chorar, só fui atravessado por um sentimento de angústia que nunca havia sentido antes. Na memória repassava os  momentos de felicidade antes de saírem, os acenos de tchau e os sorrisos estampados nos rostos deles. Não era possível que fosse verdade. Então assim que é a vida? Uma hora estamos felizes e logo depois estamos mortos? Não pode ser, deve ter algo errado nessa história. Pensei que eles tivessem tentando me pregar uma pegadinha e fui para casa.


        No dia seguinte tudo se confirmou, acordei com o barulho da visita do pai do Felipe, ele e meu pai tomavam um café e suas palavras ecoavam pela casa. Fiz que ainda estava dormindo para poder ouvir tudo e tapava meu rosto contra o travesseiro para conter o choro na medida que escutava a história... acontece que todos estavam se divertindo no rio, os que não sabiam nadar ficavam na margem e só quem sabia nadar podia se aventurar com a boia improvisada e arriscar a travessia do rio. Gustavo não sabia nadar e estava na margem com os amigos quando aceitou o desafio de provar para todo mundo que mesmo não sabendo nadar, era capaz de atravessar de um lado para o outro.


          Teve sucesso na ida, mas na volta a boia improvisada escapou dos seus braços ainda no meio do caminho. Marcelo, o mais velho, até tentou nadar para perto de Gustavo, mas ele se debatia em desespero e o fez se afastar numa tentativa de salvar a própria vida. Ninguém pôde fazer nada além de assistir os seus esforços em vão e escutar os  gritos de socorro.

Tenho certeza que se eu tivesse escolhido ir contra a vontade do meu pai e acompanhado os garotos até o rio, eu teria aceitado o desafio de cruzar de um lado para outro, mesmo eu também não sabendo nadar. Teria sido eu, de alguma forma eu sabia e aquele sentimento se misturava com a tristeza da morte de Gustavo e me dilacerava. O mundo não era justo.


        Lembrei que desejei a morte do meu pai e corri para os seus braços pedindo desculpas por ser um mau filho, desculpas por quase não tê-lo escutado. Chorei copiosamente por alguns minutos. A morte era algo horrível e ela havia caído tão perto de mim que era como se eu tivesse morrido também.

Uma parte de cada garoto morreu naquele dia  quando não tiveram escolha além de assistir atônitos e impotentes os pedidos de socorro e os últimos esforços de Gustavo antes de afundar para não emergir mais.


Quando vou até uma estação de metrô e fico esperando o trem atrás da faixa amarela, sempre me perco olhando  os trilhos e fico imaginando aonde me esconderia para sobreviver caso caísse no vão. Às vezes fico olhando por tanto tempo que sou atingido por um sentimento de vertigem e preciso até me segurar, pois o medo de cair é tão real que quase me puxa. O trem vem vindo e já posso escutar o seu ruído agudo ecoando nas paredes do túnel e aumentando na medida que se aproxima. A corrente de ar me acerta o rosto, me faz balançar e naquele segundo estou flutuando... dois passos para frente da faixa amarela está a morte me encarando lá dos trilhos e dizendo que eu posso pregar uma peça em Deus.


  Eu posso decidir quando minha hora vai chegar,

        mas hoje não, hoje ainda não é minha vez.



THE END

ROBERTO CRUZ